Publicado por: Big_DJouse | setembro 30, 2011

Sobre Amor

Ela estava sentada à mesa, meio que nervosa. Depois de tanto tempo, ainda se sentia desse jeito perto dele. Todo jantar entre os dois era assim: ela se sentia acuada, meio que uma presa diante do predador. Só depois de uma taça de vinho e um pouco da conversa irresistível dele, ela relaxava. E a partir daí era tudo maravilhas: a troca de olhares, seus galanteios, às vezes alguma dança lenta, os beijos, carícias e, quase sempre no fim, a noite de amor.

Já havia um tempo que estavam nessa espécie de rotina. Quando pensava bem sobre ele, às vezes percebia que o conhecia muito pouco. Mas não importava. Estava tudo perfeito. Ele era perfeito. Com um pouco mais de tempo ele se abriria. Não fora ele mesmo quem prometera isso a ela? Para que pressioná-lo e arriscar estragar tudo?

Ela bebeu mais um pouco do vinho. O jantar estava, como sempre, impecável. Só ele que parecia diferente naquela noite. Ela não conseguia dizer o que era. Nunca conseguia.

― Você está preocupado com alguma coisa? Você está meio que estranho hoje.

― É que hoje é uma noite especial para mim.

― Verdade? Por quê?

Ele segurou a sua mão. Seus olhos castanhos a fitaram profundamente. Ele ficou ali parado, como se estivesse reunindo as palavras para dizê-la. O breve silêncio que se seguiu deixou-a apreensiva. Ele perguntou, então:

― Você me ama?

Não era o que esperava. Na verdade, nem sabia o que esperava. Aquela pergunta parecia… errada naquele momento. Se ela o amava? Ele era perfeito. Simples assim. Ela pensou nas suas qualidades, nos momentos que passaram juntos. Era, por mais clichê que fosse, um belo conto de fadas. Que mulher não se apaixonaria?

Mas… ela o amava? Aquela pergunta tão inoportuna fê-la perceber que faltava algo. Ela o admirava, estava apaixonada até, mas… não, amor não. Não saiba o porquê. Não sabia dizer se faltava alguma coisa ou se era mera questão de tempo. Só sabia da resposta daquela pergunta:

― Eu… não te amo.

Ele ficou surpreso. Baixou o rosto, talvez decepcionado. Ela emendou em seguida, se desculpando:

― Olha, você é maravilhoso. É carinhoso, gentil…

― Eu fiz algo que lhe desagradou?

― Não! O problema é comigo. Você é… perfeito.

Ele a olhou em dúvida.

― Entendi. Você me acha perfeitinho demais. Talvez até entediante.

― Não, não! Não disse nesse sentido. Pelo menos para mim, você é perfeito de verdade.

Ela colocou uma ênfase especial no “de verdade”. Seus olhos a fitaram. Não parecia triste ou decepcionado. Parecia meramente interessado. Ele perguntou:

― De verdade? Mas então, por que não me amas?

― Eu… eu não sei. Acho que talvez no futuro, quando nos conhecermos mais…

― Não, minha querida.

― Como?

Ele agora sorria. Mas não o sorriso que ela conhecia. Era um sorriso cínico, torto. Não era ele.

― O amor não necessita de tempo para nascer. Se você não me ama agora, dificilmente me amará.

― Como você pode ter certeza disso? Por que isto agora? Não estou entendendo nada.

― Já vivi muito tempo para saber disso. Ah, minha cara. Tanto tempo procurei por alguém como você. Alguém com capacidade de entender…

Ela começou a ficar assustada. Ele estava estranho naquela noite, falando coisas sem sentido.

― O que há com você? O que aconteceu?

― Eu repeti esta mesma pergunta a várias mulheres. Todas, sem exceção, deram-me a mesma resposta. Todas elas, sem exceção, disseram-me que me amavam, completamente, incondicionalmente.

“Todas elas estavam igualmente cegas. Não conseguiam diferenciar amor de paixão. Mas não você, minha querida. Você, indubitavelmente, está apaixonada por mim. Seu olhar, sua voz, suas ações, tudo me dá sinais claros disto. Foi para isso que eu tenho sido, como você mesmo disse, perfeito. No entanto, tu disseste que não me amavas.”

Ela ficou parada, encarando-o. Seu jeito de falar estava estranho, meio que arcaico. Não , não era ele.

― Já amou alguém?

― S-sim, mas não entendo o que…

― Tem certeza?

Ela não respondeu. Já estava bastante confusa. Ele tomou sua mão. Disse-lhe então com paciência:

― Vês? Nem mesmo tu sabes se não confundiu paixão com amor. Todos fazem isto, minha cara. Pois amor nada mais é que uma mistura de resignação e paixão. Nada mais que isso.

― Então o amor não existe? É isso que você está quer provar?

Aquele sorriso estranho surgiu mais uma vez em sua face.

― Provar? Não, não. Você só acreditaria em mim se começasse a ver com os meus olhos.

Ele beijou a mão dela e a pousou suavemente na mesa. Levantou-se e foi até ao seu lado, deslizando seu indicador pelo braço dela. Os dedos dele passaram pelo seu colo e finalmente afastaram os longos cabelos negros que escondiam seu pescoço. Ela deu um risinho nervoso.

― Isso é alguma brincadeira, por acaso? Eu já estou ficando assusta…

Ela não teve tempo de terminar. O que se seguiu depois foi tão rápido que ela não pôde reagir. Ele afastou a cabeça dela e cravou suas presas em seu pescoço. Em instantes, dois filetes de sangue surgiram descendo lentamente pelo seu colo, até finalmente unirem-se e desaparecerem em seu seio.

Sentiu um êxtase, um prazer que só conhecia no sexo, impossível de resistir. Porém, ela estava desesperada, lutando para se livrar daquilo. Era capaz de sentir sua vida se esvaindo, fluindo para aquelas presas cravadas em seu pescoço.

Então, quando já pensava que não iria suportar mais, ele parou e a soltou. Com um só movimento de seu braço, jogou a pesada mesa para longe. Ela só pôde escutar o barulho da mesa se chocando contra a parede, a louça quebrando. Ele puxou a sua cadeira para bem próximo dela e sentou-se bem na sua frente. Foi então que ela sentiu verdadeiro terror.

Não era o seu sorriso, agora vermelho, cínico, monstruoso. Não era seu rosto pálido, sem vida, sem traço de humanidade. Eram os olhos. Os olhos mortos dele tentando fingir vida. Quando ela o encarou, sentiu um medo instintivo, irracional. Seus olhos diziam que o fato dele estar ali era um absurdo, uma afronta à realidade. No entanto ele estava mesmo ali, como que debochando da Natureza e das leis de Deus.

― Você vai morrer, mas não agora ― prosseguiu ele calmamente, com se estivesse tratando de algum assunto frívolo.

Tentou se acalmar, tentou pensar. Precisava sair dali, fugir. Diabos, por que não conseguia se mexer?

― Eu tirei o suficiente para deixa-la quieta. Precisamos conversar. Preste atenção no que irei lhe propor, pois você não tem muito tempo.

― Por que eu?

― Evite falar. Guarde para quando for me dar uma resposta. Apenas escute.

Ela aquietou-se. Evitava olhar para ele.

― O porquê de te escolher, já disse. Dentre várias, você é a única que pode entender o que quero fazer.

“Já vivi alguns séculos, minha querida. Já vivi muita coisa na minha não-vida. Quando você passa tanto tempo andando nesse mundo, começa a perceber como certas coisas são pequenas, sem importância. Vocês, mortais, são um bom exemplo. Vivem se matando, se destruindo enquanto tentam erguer suas frágeis vidas em cima de sentimentos tão quiméricos quanto o amor. Ah, se vocês pudessem olhar as coisas pelo meu ponto de vista… poderiam aprender tanto…

Ele parou por um instante, olhou de lado, talvez tropeçara em alguma memória. Se antes ela nunca sabia dizer o que ele estava sentindo, agora era impossível. Ele prosseguiu:

― Bem, nada de lições. O tempo é melhor professor que eu. A única coisa que você deve saber por enquanto é que a imortalidade é uma maldição. Uma maldição de puro e simples tédio.

“Depois de tanto tempo, nada mais te atrai. Manipular vocês, por exemplo, foi uma grande diversão minha em alguns séculos. Mas ficou tão fácil, tão simples, não é mais divertido.

“Ah sim, minha querida, foi isso que fiz com você. Se você ainda não deduziu, o que muito duvido, eu fingi minha paixão por você. Planejei isto tudo, meticulosamente. Cada palavra, cada gesto, cada olhar foi pesado cuidadosamente, como um ingrediente de uma fórmula secreta para deixa-la apaixonada por mim.”

Ela escutava tudo. Foi do medo ao nojo, asco. Quando se lembrou de como ele era, tão doce, tão amável e soube que aquilo era pura encenação, começou a sentir ódio. E agarrou-se a esse sentimento, tal qual um náufrago que se agarra a uma boia. Seu ódio foi crescendo, à medida que pensava em tudo que ele estava lhe fazendo.

― Mas, como ia dizendo, minha não-vida é apenas uma luta constante contra o tédio. E você, minha cara, irá me ajudar nesta luta. Quero que você seja minha companheira.

Ela esboçou um sorriso. Se pudesse, daria uma gargalhada. Falou, já com certa dificuldade:

― Agora… você está… se contradizendo, não?

Ele deu-lhe novamente aquele sorriso medonho.

― Ah, não, não me interprete mal. Não quero que você seja minha esposa durante a eternidade. Não sou nenhum tolo romântico, muito longe disso. Outras antes de você desejaram viver suas não-vidas ao meu lado, tamanha era a cegueira do amor que lhes instiguei. Por isso eu as matei. Não serviam ao meu propósito.

Então ele matava mulheres pelo simples erro de amá-lo. Deus, que tipo de monstro estava diante dela?

― Você, ao contrário, não se deixou cegar pelo amor. Por isso você é a escolha perfeita. O que eu quero de você é seu ódio. Foi por isso que te escolhi, assim que me respondeu aquela pergunta.

“E minha escolha foi finalmente feliz. Eu vejo ódio em seu olhar, um ódio que será cada vez maior. Você vai tentar me matar, me destruir, me fazer sofrer. Eu, é claro, me encarregarei de evitar que você consiga realizar este feito. Diga, não é um excelente modo de afastar o tédio?”

Então, aquilo tudo era só para distraí-lo? Ah, ela já o odiava. E se odiava também, por fazer justo o que ele queria. Ela sentia sua vida se esvair. Sabia ao certo que estava a minutos, talvez segundos de se encontrar com a morte.

― Por que você… simplesmente não se mata, monstro?

― Mas estou fazendo isso. Veja: se você me matar, eu venço. Se você morrer, bem, ao menos eu me diverti. Não é brilhante?

― Covarde! ― seu grito saiu fraco, quase um sussurro. Estava cada vez mais fraca. Só podia estar consciente por algum efeito daquele monstro sobre ela.

― Sei o que quer dizer. Deves estar pensando: por que ele não se suicida? Por que ele me envolveu neste jogo sádico? Infelizmente, há outras questões em jogo, querida. E se quer saber quais são, tem que entrar no jogo. São as regras.

Ele levantou o rosto dela, já tão pálido quanto o seu e olhou bem nos seus olhos:

― Já é hora. É engraçado dizer isso depois de tanto tempo, mas realmente gosto de você. Por isso lhe darei uma escolha: você pode morrer agora e descansar para sempre ou pode morrer agora e depois me caçar pela eternidade. O que deseja fazer, meu amor?

Então ali, no fim, ela ficou surpresa ao descobrir que amava viver. Descobriu que desejava viver, mesmo que uma maldita imitação de vida. E ficou cada vez mais ciente de seu ódio por aquele demônio que iria tirar seu bem mais precioso. Não foi difícil escolher, mesmo sabendo do inferno a qual aquela escolha poderia (e fatalmente iria) levar. Reuniu seu último fôlego e disse, com uma voz firme:

― Eu aceito. E juro, pela minha vida que você acaba de tomar, que vou matá-lo.

Ele sorriu. Mordeu o próprio pulso e deixou um filete de sangue gotejar em sua boca, já sem vida.

― Que assim, seja minha querida. Que assim seja.

PS: Essa história surgiu na minha cabeça como uma espécie de protesto contra a saga Crepúsculo. Pra mim, é assim que um vampiro tem que ser.

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