Publicado por: Big_DJouse | janeiro 6, 2010

Sobre assassinos e confidentes

Não tive um filho ainda. Plantar árvores, falta o onde. E meu livro ainda não saiu do primeiro capítulo. Mas pelo menos tenho um feito para me orgulhar (?) na vida: fui confidente de um assassino. Contarei a história.

Era noite, estava frio e escuro. Nenhuma alma sequer vagava pelas ruas. Nem a lua surgiu no céu, talvez com medo de que algum mal lhe acontecesse caso desse as caras. Eu estava perdido com meus pensamentos, ignorando o perigo de esperar um ônibus naquele ponto, naquela noite. Na verdade, nada disso aconteceu. O ponto de ônibus era perto da minha casa, era cedo da noite, estava claro e tinha gente por perto. Mas achei que ia ficar legal assim, meio dramático. Sabe como é, criar clima, etc.

Pois bem, estava lá eu quando veio um simpático senhor, seus 60 e poucos anos e aproximou-se de mim. Logo imaginei: “droga, vai querer puxar conversa”. Dito e feito.

– Que horas são?

– Sete horas.

– É,  ainda tem tempo.

– !?

Bem, fiquei na minha. No mínimo era um gancho para encaixar uma conversa. Se eu fosse tolo, iria perguntar “tempo pra quê?” e aí ele iria me contar uma história enorme e  maçante. Não obstante, o velho sentou-se ao meu lado e prosseguiu na sua “filosofação”:

– O tempo corre, viu? Antigamente eu olhava pra cima pra falar com as pessoas. Depois eu passei a olhar pra baixo. Hoje em dia eu olho pra cima de novo.

– É mesmo.

Tentei ser educado e mostrar que não estava afim de papo. Obviamente ele captou apenas a primeira mensagem:

– O senhor já tem filho?

Fiquei encucado com o “senhor”.

– Não, não.

– Ah, eu tenho. E tenho três netos. O senhor me dá quantos anos?

– Sessenta e poucos – respondi.

– Tenho oitenta e um.

– Não parece – fiz-me de impressionado, mas ainda não querendo conversa.

– Pois é, já vivi muito. Já fui  rico, já passei fome.

– …

– Meu pai me  expulsou de casa quando eu tinha 17 anos.

Pronto, agora deslanchou de vez, pensei. Vai me contar a história da vida toda. Já que chegamos até aqui, não custa nada ouvir o velho. Minha boa ação do dia.

– E me deixou sem dinheiro nenhum, nem direito à herança. Morei na rua, passei fome. Isso é coisa que um pai faça, companheiro?

Pelo menos fui promovido de senhor a companheiro…

– Não, senhor.

– Pois é. Meu pai tinha uma irmã que vivia maltratando minha mãe. Sempre falava um monte de besteira com ela. Eu sempre via minha mãe chorando e meu pai não fazia nada.

– …

– Eu dizia a minha mãe: “Se preocupe não, mãe, quando eu crescer eu dou um jeito nisso”. Era tarefa de uma criança resolver isso, companheiro?

– Claro que não! – respondi, já intrigado.

– Pois foi. Quando fiz 17 anos, matei minha tia.

– O_O.

Sim companheiros, foi esta a cara que fiz. Palavras não descrevem melhor que este emoticon. Felizmente o velho não notou, estava absorvido pelas lembranças do passado.

– Meu pai não me botou na cadeia. Disse só isso: “Saia da minha frente que não quero lhe ver nunca mais”.

– Puxa… – eu realmente não tinha o que dizer.

– Mas pelo menos o que fiz deu resultado. A família do meu pai passou a respeitar a família da minha mãe toda.

É, nem desconfio o porquê.

– Soube que meu pai se casou de novo e teve três filhos. Depois que ele morreu, eles ficaram com toda a herança dele. Meu pai tinha dinheiro, era dono de fazenda grande. Eu vi nem a cor do dinheiro dele. Foi justo isso, companheiro?

– Claro que não!

Claro que não iria discordar dele.

– Pois é. Eu até choro quando lembro dessa história.

De fato ele estava chorando.  Soltei essa pra ver se ele se animava:

– Então vamo se lembrar de coisa boa, homem.

– Ah, mas é assim mesmo. É a vida.

– Eita, chegou o ônibus.

Finalmente, vinha o ônibus. Salvo, pensei. Mas e se ele fosse se sentar do lado do meu banco e continuasse o papo? Felizmente isso não aconteceu. Ele entrou pela frente, já que era idoso, e pareceu se esquecer de mim. Só quando eu já ia descer do ônibus, quando acenei pra ele, ele respondeu meu aceno. Depois disso, nunca mais o vi. Talvez tenha cometido outro assassinato e teve que picar a mula. Sei lá, a pessoa pode tomar gosto pela coisa. E não tivemos tempo para conversar sobre outros assassinatos que ele possa ter cometido. Pensando bem, se eu não voltar mais aqui, vocês já sabem o que aconteceu.

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Responses

  1. Putz!
    depois dele ter confessado o tal crime, pensava que vc ficaria um pouco interessado na conversa rsrs… imagino a sua cara como deve ter ficado na hora que ele falou isso kkk… que modo mais extremo de se resolver uma situação hein? imagina se hoje fosse assim? (ah, algumas vezes já é)


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