Publicado por: Big_DJouse | julho 19, 2005

Sobre loucura e humanidade

“A mais louca e a mais desprezível de todas as classes humanas é a dos mercadores. Ocupados o tempo todo com o vil amor ao lucro, empregam, para satisfazê-lo, os meios mais infames. A mentira, o perjúrio, o roubo, a fraude e a impostura preenchem sua vida inteira; apesar disso, acreditam que seu dinheiro deve faze-los passar pelos homens mais importantes do mundo; e não faltam frades aduladores que não coram por lhe oferecer em público os títulos mais honrosos, a fim de abocanhar uma pequena parte de uma riqueza mal-adquirida.

Por outro lado, vêem-se pessoas que, convencidas como os pitagóricos de que todos os bens são comuns, apropriam-se sem escrúpulo de tudo que lhes cai nas mãos e imaginam possuí-lo tão legitimamente como se o tivessem herdado. Há os que são ricos apenas em esperança; forjam-se as idéias de fortuna mais brilhantes e agradáveis, e isso basta para fazê-los felizes. Alguns querem passar por ricos em público, embora em casa não tenham o que comer. Um se apressa em dissipar toda a sua riqueza; outro a acumula por toda espécie de meios. Este luta para obter cargos do Estado; aquele só sente prazer em ficar junto à lareira. Uma grande parte dos homens atormentam-se com processos judiciais eternos e parece querer saber quem enriquecerá: o juiz que prolonga a causa ou o advogado que os engana. Aqui, há gente ávida de novidades; ali, medita-se algum empreendimento extraordinário. Outros vão a Jerusalém, a Roma ou a Santiago, onde nada têm a fazer, deixando em casa as mulheres e os filhos, que teriam grande necessidade deles. Enfim, se observásseis da lua todas as agitações inumeráveis dos homens, teríeis a impressão de ver um turbilhão de moscas e mosquitos discutindo, lutando entre si, armando emboscadas, saqueando-se, divertindo-se, galhofando, nascendo, caindo e morrendo. Não se poderia imaginar a quantidade de movimentos, de confusões, de cenas as mais variadas que a todo instante no globo produz o homem, esse pequeno animal que mal consegue prometer-se um instante de vida, e que está continuamente exposto a ver abreviado esse instante pela guerra, a peste e os outros males que devastam e despovoam com tanta freqüência a terra.”

Este é um trecho do Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam. É incrível como um livro do século XVI se mantém tão atual. Pra falar a verdade, não é assim tão surpreendente. Incrível mesmo é a humanidade não ter feito muito progresso desde que apareceu na Terra.

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